Mafalda Afonso e Mariana Morais apresentaram o projeto NarcoWake na competição H-Innova
Durante dois dias, o Funchal concentrou as expectativas dos alunos de mestrado de Engenharia Biomédica e Biofísica que participaram na competição de apresentação de ideias de negócio H-Innova - Health Innovation HUB. O caso não era para menos: três equipas de estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) foram, na semana passada, à capital madeirense para participar na competição de projetos de mestrado da conferência Digital Health Summit, que reúne, anualmente, investidores, cientistas e profissionais de saúde. Na viagem de ida, os investigadores levaram na bagagem uma proposta para travar crises de narcolepsia, um protótipo de rato de computador artilhado de sensores, e um dispositivo que trava o bruxismo. O regresso trouxe sorrisos pelo segundo lugar do projeto NarcoWake, um terceiro lugar do projeto TranquilBite e a não menos honrosa classificação para a final do projeto Motis.
“Nos últimos três anos, houve sempre projetos apresentados por alunos de Ciências ULisboa nos três primeiros lugares desta competição”, refere Nuno Matela, professor do Departamento de Física. “Este mestrado segue um modelo de ensino baseado em projetos concretos e palpáveis que abrangem todas as vertentes do desenvolvimento de propostas de produtos com potencial de mercado”, acrescenta o professor.
NarcoWake, TranquilBite e Motis começaram a ganhar forma no Mestrado de Engenharia Biomédica e Biofísica, que é coordenado por Brígida Ferreira, professora do Departamento de Física de Ciências ULisboa. Durante o curso, os alunos são desafiados para a conceção de produtos ou serviços, ao mesmo tempo que tiram partido de disciplinas que ensinam planos de negócios, preceitos da instrumentação médica, ou contornos da digitalização na Saúde, entre outros temas. Só os projetos mais avançados ou com protótipos desenvolvidos participam em concursos como o H-Innova – sendo que NarcoWake, TranquilBite e Motis contaram com o apoio da associação FCiências.ID para ir à Madeira. “Os alunos deste mestrado nunca ficam fechados na Faculdade”, sublinha Nuno Matela.
NarcoWake, que garantiu o segundo lugar na competição de "pitches" para alunos de mestrado, também é revelador do esforço de quem faz questão de sair do campus para conhecer a realidade. “Sabemos que há medicamentos para a narcolepsia, mas também verificámos que não existe nada que indique por antecipação uma crise de narcolepsia”, refere Mariana Morais, aluna do Mestrado de Engenharia Biomédica e Biofísica.
A narcolepsia caracteriza-se por uma desregulação do sono que leva os pacientes a adormecerem durante períodos de vigília. Com NarcoWake, Mafalda Afonso, Mariana Morais e Mariana Silva idealizaram um dispositivo que capta ondas cerebrais das zonas temporais do cérebro para, com a ajuda da Inteligência Artificial (IA), prever episódios de sonolência extrema. As três investigadoras sabem que o projeto ainda tem de ser aprimorado, mas mantêm a expectativa de criar uma ferramenta que deteta, com dois minutos de antecedência, uma crise de narcolepsia, e emite alertas vibratórios de cerca de 30 segundos para manter o paciente acordado. NarcoWake aproveitou a mentoria de Nuno Matela e da professora Ana Prata, mas as três mestrandas não vão ficar por aqui: “Queremos criar uma startup. Já pedimos um registo de patente, mas sabemos que temos um caminho longo pela frente”, refere Mariana Morais.
TranquilBite também remete para os períodos de sono, mas tem como objetivo evitar crises de bruxismo com uma venda que tapa os olhos e estimula músculos da cara, para evitar os rangidos de dentes que caracterizam este comportamento noturno. O projeto tem como mentores Pedro Cebola, médico do Hospital CUF Tejo, Ana Margarida Mota, professora do Departamento de Física, e Teresa Vieira, coordenadora da escola de formação avançada comCiências.
“Ficámos contentes com o resultado na competição. Mostra que este projeto tem potencial, mas também significa que tivemos capacidade de apresentar uma ideia de negócios a uma plateia dominada por investidores e profissionais de saúde”, refere Afonso Simões, aluno que tem vindo a desenvolver o projeto TranquilBite com os colegas Inês Correia e Rodrigo Dias durante o mestrado.

O projeto Motis classificou-se para a final e não chegou ao pódio – mas promete facilitar a vida de quem usa o rato do computador. O projeto tem por base um protótipo com sensores que monitorizam postura da mão, força exercida e stresse de quem usa o rato. Sempre que deteta posturas pouco saudáveis, força excessiva ou índices de stresse, o protótipo desencadeia alertas luminosos (com LED) de cor amarela. Nos casos mais danosos, a cor passa a vermelho para sinalizar a necessidade de fazer uma pausa, para evitar lesões ou dores. O projeto contempla ainda software para relatórios e métricas diárias. “Já há ratos ergonómicos, mas nós queremos desenvolver um rato inteligente!”, promete Sofia Lopes, aluna de mestrado de Ciências ULisboa.
Além de Sofia Lopes, o projeto Motis conta com Beatriz Martins, Clara Neves, Madalena Tomé e Martim Fernandes. Ana Margarida Mota, professora do Departamento de Física, e Nuno Matela asseguraram a mentoria. O pedido de patente já avançou. “Claro que toda a gente gosta de ganhar uma competição, mas estamos contentes por termos ido à final. O objetivo era mesmo aprender com especialistas e estabelecer contactos com investidores e empresas”, acrescenta Sofia Lopes. O engenho há de fazer o resto.

